Livro – A audácia desta mulher

A audácia desta mulher

Ana Maria Machado, Brasil, 1999

Sinopse: Bia e Virgilio se conhecem durante a produção de um programa de tv ambientado no século XIX. Os dois, livres e desempedidos, logo se envolvem. Graças à proximidade que a relação lhes impõem, Bia tem acesso à um antigo caderno de receitas, que está na família de Virgilio há muitos e muitios anos. Entre uma receita e outra, Bia descobre pequenos trechos de um diário que a “menina”, dona do caderno, escrevia em plena Rio de Janeiro, no final do século XIX, mesmo período em que a série se passa.  Por algum motivo, a história parece incrivelmente familiar à Bia, mas é só no final, quando o nome da autora é revelado, que a personagem percebe a descoberta espetacular que tem em mãos.

A escrita: Bastante intessante, a autora alterna periodos de narrativa onisciente, em terceira pessoa com periodos de diálogo aberto com o leitor, à moda dos grandes escritores do século XIX, como Machado de Assis.

O enredo: Posso estar cometendo um sacrilégio, visto que este livro ganhou o Prêmio Machado de Assis, o mais alto prêmio da Academia Brasileira de Letras, mas eu achei a história bem “globo filmes”. Sabe como é, aquela coisa meio banal, decorada com um tantinho a mais de arte, como “A dona da história” e “Bossa Nova”? Pois é, eu achei. Ou então a minha visão do Rio de Janeiro é tão demasiadamente “global” que qualquer cena que envolva pessoas correndo no calçadão me remeta à novela das oito. Mas justiça seja feita, ela faz umas reflexões bem interessantes no final. Podemos definir a obra assim: 100 páginas de novelinha somadas à mais 100 páginas de literatura no final.

Relação do livro com a minha vida: Gente, vocês sabiam que eu já reescrevei o Don Casmurro? Pois sim! No segundo grau, nossa professora de litaratura nos passou um trabalho em grupo: ler o Don Casmurro e reescrever a história, escolhendo livremente uma solução para o caso do adultério. Valia qualquer coisa: de traição à não traição, à fazer um romance igualzinho ao do mestre, em que ninguem sabe lhufas sobre o que aconteceu. Meu grupo, escolheu a traição e resolvemos escrever o livro em primeira pessoa, a partir da visão da capitu. Dividimos entre nós uma média de cinqüenta páginas do livro e nos pusemos a reescrever. Eu fiquei com a adolecencia deles. Me lembro de escrever a cena em que a capitu e o bentinho fazem alguma coisa bem íntima (não sei se se beijam ou fazem o equivalente a isso no século XIX, tipo aquela coisa de “roçar os dedos bem de leve”) e a mãe ou o pai da capitu chegam bem na hora e eles têm que disfarçar. A minha amiga Ana ficou com a bendita cena do piano, em que a capitu beija o Ezequiel. Eu preciso muito achar nossa versão do Don Casmurro. Espero que alguém tenha guardado. Bom de ainda ser amiga das mesmas pessoas daquela época é isso, sempre tem a chance de resgatar essas coisas. Mas enfim, a relação do livro comigo é que eu tenho CERTEZA que foi por causa deste livro – uma das milhares de releituras e versões do Don Casmurro – que a minha professora nos sugeriu o trabalho. Eu lembro dela comentando isso em sala. Incrível como as memórias mais periféricas vêm á nossa mente. E as datas fecham, porque em 1999 eu estava no primeiro ano do segundo grau!

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Uma resposta a Livro – A audácia desta mulher

  1. Patrícia diz:

    Passando para revisitar o blog e tenho uma ótima surpresa.

    Achei super interessante conhecer sua relação afetiva com Dom Casmurro. Sempre temos uma boa história pra contar dos livros marcantes que lemos. Sempre acreditei que é assim que se constrói o prazer pela leitura. Muitas vezes até começamos a ler algo só pela empolgação de um amigo ao nos contar sobre como conheceu determinada obra, o que está vivenciado ao ler aquilo e tal. É como se quiséssemos comprovar se aquilo que ele fala é tão bom assim mesmo ou não.Se é possível ficar tão animado ao ler um livro assim. E aí nos surpreendemos…

    Cada um, uma memória, uma lembrança…. Isso é a mágica da literatura.

    Suas memórias me fizeram revisitar também lembranças muito boas da minha adolescência. E quer saber de uma coisa, todo mundo devia ter o direito de conhecer Machado na sua adolescência. Ela seria, com certeza, uma fase muito mais problemática e questionadora. Hahahahaha!

    Recordei-me quando quando tive Dom Casmurro nas minhas mãos pela primeira vez aos 14 anos. Foi o primeiro clássico que eu li e simplesmente o mundo da literatura se abriu diante do meus olhos. (Ah, dei até um suspiro nessa hora, HAHAHAHAHA!). Com a vida corrida que ando levando nos últimos dias e com pouco tempo para ler, estava precisando disso.

    Dom Casmurro é sem dúvida um divisor de águas na vida de qualquer leitor. É possível até que cada um de nós tenha uma interpretação para o final da história de amor entre Bentinho e Capitu. Engraçado, eu também já tive vontade de reescrever essa história. Reinventar o romance só que pelo olhar de Capitu provando que ela não tinha olhos de “cigana oblíqua e dissimulada” tanto assim. Talvez fosse tudo uma grande invenção neurótica de Bentinho, que acabou estragando tudo.

    Curti sua professora de literatura também. Ela fez o papel aquele amigo empolgado que nos desafia prazerosamente para leitura, até sem querer.

    Obrigada por compartilhar sua história e me dar a oportunidade de viajar pelas minhas memórias literárias mais legais.

    É sempre MUITO BOM passar por aqui. É garantia certa de leitura prazerosa!

    Abraços,

    Patrícia

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