Saúde: Em Cuba e no Brasil

Sobre medicina, greves e governos

Durante minha estadia em Cuba, além de estudar história na Universidad de Oriente, em Santiago de Cuba, também tive a oportunidade de acompanhar, enquanto estava em Havana, os estudantes de medicina em suas mais diversas atividades, tanto teóricas como práticas. E posso afirmar que foi uma das experiências mais impactantes que já tive. Acompanhava-os na Universidade e nos hospitais. Realizava com eles visitas a domicílios, que sempre eram mais longas do que esperávamos, pois tão grande era o carinho com o qual éramos recebidos que acabávamos conversando sobre os mais diversos assuntos. E quando se inteiravam que éramos estudantes brasileiros, aí já ofereciam café e tudo quanto possam imaginar. Enfim, fiquei realmente impressionado com o sistema de saúde daquele país e com o enfoque que é dado pela medicina, extremamente humanizadora, sem qualquer viés que objetive o lucro. Realmente fiquei tentado a trocar a carreira de historiador pela de médico e, se não fosse minha aversão às agulhas, talvez o teria feito. Poderia relatar também aos leitores, minhas experiências em Cuba enquanto paciente (estive internado no hospital em duas oportunidades), mas aí o texto tornar-se-ia extenso demais. Bom, talvez na próxima oportunidade eu conte. Mas por enquanto, fica aqui meu grande abraço aos meus amigos formados em medicina em Cuba e que hoje estão cumprindo missão médica nas selvas da Venezuela: a Marcus, Daniel e Ana Rosa, meus sinceros agradecimentos pelos ensinamentos que me passaram e continuam me passando.

Quando voltei ao Brasil, comecei a analisar um pouco mais o nosso sistema de saúde (não tão profundamente quanto gostaria). Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que sou um grande defensor do SUS que, apesar de todos os problemas que devem ser resolvidos, possui uma ótima concepção de medicina, a começar pela afirmação de que ela deve ser totalmente pública. Sabemos que a carreira de médico no Brasil, e em muitos outros países, é a mais elitizada de todas. Ou seja, nosso problema começa já na Universidade, pois geralmente quem consegue ingressar nos cursos de medicina são estudantes das classes mais abastadas da nossa sociedade. Bueno, apesar de toda a regra ter suas exceções, daí já podemos deduzir as concepções de medicina que são predominantes em nosso país. Aliás, talvez muitos ainda não saibam, mas os estudantes brasileiros formados em medicina em Cuba, são proibidos de trabalhar no Brasil. Por quê? Posso arriscar que seja por uma reserva de mercado (isso mesmo, medicina também é mercadoria no Brasil), ou seja, quanto menos médicos, mas caro se torna nossa saúde. E isso não é só culpa do governo, pois existe uma grande pressão dos conselhos médicos no país para barrar a vinda desses médicos recém formados em Cuba e que possuem uma outra visão da medicina.

Considerações feitas, quero por último falar sobre a greve dos médicos em nossa cidade. Mais uma vez a população de Caxias sofre com este descaso. Mas a culpa é dos médicos somente? Claro que não. A grande mídia de nossa cidade tenta desesperadamente tirar a parcela de culpa do nosso governo municipal e colocá-la nos médicos. Estes, estariam sendo irresponsáveis e não estariam pensando na população. Mas que hipocrisia. Bom, as eleições municipais de 2012 estão chegando e é claro que a prefeitura não quer ser alvo de críticas desde já. Mas o fato é que a prefeitura é omissa e irresponsável na condução deste caso. Quantas vezes o nosso prefeito foi conversar com os médicos? E será que não poderia ter sido estabelecida, antecipadamente, uma mesa de negociações e diálogo com a categoria, para ouvi-la e para tentar encaminhar este caso de forma que a população não fosse atingida. É claro que o prefeito não deve estar muito preocupado, por que não precisa utilizar o postão 24 horas. Os planos de saúde, que ganham dinheiro com a falta de saúde das pessoas, estão espalhados por todo o canto e demonstram ser um bom negócio para quem quer investir neste ramo. Enquanto isso o que faz a grande mídia? Critica fortemente os médicos e o sistema público de saúde. Para quê? Para enfraquecer a categoria e eximir de toda a culpa a prefeitura, e além disso, para fazer com que a opinião pública diga que se tenha que privatizar a saúde também. Que absurdo! Não agüento mais ligar a televisão de meio dia e ver os comentários dos jornalistas marionetes do grande capital. Saúde pública e de qualidade é que precisamos para uma vida mais digna.

Paulo Amaro Ferreira
Acadêmico de História e Coordenador do DCE UCS

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5 respostas a Saúde: Em Cuba e no Brasil

  1. É incrível como durante um contexto de greve a grande mídia (leia-se mídia conservadora) consegue simplificar o debate e distorcer o foco real das origens dos problemas do sistema de saúde.

  2. Patrick Cesar diz:

    Gostaria de ter a oportunidade de ter uma experiência tão enriquecedora e que por mais lemos sobre a medicina de Cuba e sobre a sua qualidade jamais terá o impacto de ver funcionando de perto. Fera demais e serve de alento para tempos tão desanimadores

  3. elisson eduardo diz:

    gosto de oportunidade de ter socialista, os amigos de perto.

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