A história do movimento estudantil de direita – IV

O Comando de Caça aos Comunistas

“Nós não temos medo de nada”

Milton Morais Zélio, Integrante do CCC.

Por Diângeli Soares

“São muitos, a organização é grande. Nos seus feitos estão os ataque aos artistas de Roda Viva e à USP. Todos são violentos. Alguns, covardes.”. Assim é descrito o CCC – Comando de Caça aos Comunistas, na Revista Cruzeiro, em sua edição de 09 de novembro de 1968. Nela, o jornalista Paulo Medeiros narra tudo que descobriu em uma corajosa operação, que incluiu surrupiar o caderninho de telefones de um dos integrantes do CCC.  Conversas de bar, trocas de apelido e um golpe de sorte com um dos contatos da agenda roubada. Em poucos dias o jornalista estaria se infiltando nas entranhas do  CCC e acompanhando de perto a sua rotina. O resultado foi a importante reportagem da Revista Cruzeiro, um relato completo sobre as armas e métodos daquilo que ficou conhecido como”o comando do terror”.

O CCC foi uma organização paramilitar de direita, criada por volta de 1963, no contexto político do Pré-Golpe.  Seu símbolo era uma pirâmide, escolhida para indicar sua lógica interna: Um lider no topo, se ligando de forma hierárquica a grupos cada vez maiores, à medida em que crescia a base do grupo. Os estudantes entrevistados pela Revista Cruzeiro remetem a origem do CCC aos “tempos do Adhemar”, fazendo uma referência vaga ao político Adhemar de Barros, Prefeito e Governador de São Paulo por vários mandatos. Posteriormente, grupos dispersos teriam surgido em diferentes instituições de ensino, como a Canalha do Colégio Mackenzie e os Matadores do Largo de São Francisco. Percebendo uma convergência política entre si, estes grupos viriam a se unificar e a fundar o CCC.

A composição social do CCC incluia jovens universitários e de classe média. O  grupo tinha uma penetrância grande nas faculdades de direito, uma vez que  neste curso se concentrava uma grande quantidade de policiais. A presença de policiais e de aspirantes à carreira militar no CCC, possivelmente explica a violência do grupo, uma peculiaridade que o diferencia dentro do espectro da própria direita. Para fazer parte do CCC, o “candidato” tinha de passar por uma série de testes. Os membros do grupo exigiam saber a orientação sexual do candidato, sua opção religiosa, quais os livros que este já havia lido e se era capaz de cantar corretamente o hino nacional. Só depois de três meses, o candidato era aceito e passava a receber treinamento militar. Na reportagem da Cruzeiro, o jornalista chega a interrogar os membros do comando a respeito de uma chácara, onde este treinamento seria realizado:

_ Dizem que há uma fazenda, há 400 km de São Paulo onde… Não chego a terminar a frase.

_ Dizem né… Mas ninguém prova nada.

_ Dizem até que um fotógrafo documentou tudo, mas um do CCC conseguiu roubar-lhe o filme.

_ Eu duvido muito. Apresente-me esse reporter. Você acha que se isso existisse mesmo (ele acrescenta um ar de malícia às suas palavras, parecendo que deliberadamente pretende deixar uma dúvida sobre as próprias declarações e prossegue) que alguém ia deixar chegar por perto?

Os principais fatos históricos associados ao CCC são três: A batalha da Rua Maria Antônia, em que os estudantes da Mackenzie se degladiaram com os estudantes de filosofia da USP; os atentados contra a peça teatral “Roda Viva”, de Chico Buarque, em diversas cidades do Brasil; e o assassinato do Padre Antonio Henrique Pereira Neto, colaborador do Arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara, ambos conhecidos por sua atuação oposicionista ao regime militar. Convém ressaltar que a destruição da sede da UNE, em 1 de Abril de 1964, também é atribuída ao CCC. Entretanto outras organizações, como o MAC -Movimento Anticomunista, também são apontados como autores do atentado.

A incrível batalha dos estudantes

Em 68, quinhentos metros eram suficientes para representar o mundo. Na Rua Maria Antônia, vindo pela Aveninda Higeanópolis, era possível avistar dois prédios. À direita, estava o prédio da Universidade Mackenzie. À esquerda, o prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. De um lado, estava o CCC e outros grupos paramilitares de direita, como o MAC e a FAC. Do outro, a UNE, a UEE, células da AP – Ação Popular e dissidências do PCB – Partido Comunista do Brasil, além do próprio.

A hostilidade entre os dois lados da rua era intensa. Os estudantes de uma universidade sequer podiam estacionar os seus carros em frente à outra. Nas palavras do escritor Mário Prata, à época estudante de economia:

“Não podia mesmo. Nem frequentar os mesmos lugares a gente frequentava. Não assistíamos aos mesmos shows, não sentávamos nas mesmas mesas. Éramos adversários nos esportes e tudo mais. Aquilo tinha tudo para terminar do jeito que terminou”

Os dois lados da Maria Antônia tinham, em 68, suas lideranças. Do lado esquerdo da Rua despontava o jovem José Dirceu, estudante de direito da PUC, membro da DI-SP (dissidência do PCB paulista) e presidente da UEE. Do lado direito, a liderança era de Raul Nogueira de Lima, também conhecido como Raul Careca. Consta na reportagem da Revista Cruzeiro que Raul Careca estudava direito e sempre andava armado. É descrito como um dos membros do CCC mais empenhados em delatar e prejudicar os “terroristas” de esquerda. Nas palavras de Lauro Pacheco de Toledo Ferraz, ex-aluno do Mackenzie, uma descrição de Raul Careca:

“O Raul Careca era um homem com ar de quem nunca tomou sol. Carequinha, baixinho e de bigode, uma figura triste mesmo. Sempre de paletó e gravata. Ele era bem mais velho do que a média dos estudantes. Já devia ter uns trinta e tantos anos. O Raul também era policial e atuava no Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. Resumindo, ele era um personagem trágico”

No mês de outubro de 1968, o prédio da Faculdade de Filosofia da USP foi ocupado pelos estudantes, à exemplo de diversas outras universidades do país. Na pauta velhas/novas reivindicações: Autonomia universitária, paridade, combate às privatizações. O movimento contava com a simpatia de diversos professores da USP. Dentro da ocupação aulas livres eram realizadas, músicos e artistas eram convidados para fazer apresentações e discutia-se abertamente o futuro da UNE, já proscrita pelo regime militar, mas ainda ativa na clandestinidade. Já era sabido que em 68 seria realizado o XXX Congresso da UNE e o regime suspeitava de que ele poderia ocorrer dentro da própria ocupação do prédio da USP, fato que não se confirmou.

A batalha da Rua Maria antônia foi deflagrada no dia 02 de Outubro de 68. A UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas organizou um “pedágio” nas ruas Maria Antônia e Itambé, com objetivo de coletar dinheiro para a realização do XXX Congresso da UNE. Os estudantes da Mackenzie foram parados pelos estudantes da UBES no transito da Maria Antônia e imediamente começaram a trocar insultos e ameaças com os manifestantes. Eis então que no lugar dos insultos surge um ovo. O ovo voou direto do prédio do Mackenzie, atingindo em cheio uma estudante de Filosofia que participava do pedágio. Na seqüencia vieram tijolos e pedras, primeiro em direção à rua e depois em direção ao prédio da filosofia.

Conta-se que as lideranças estudantis que estavam dentro do prédio da USP (José Dirceu, Luiz Travassos e Edson Soares) demoraram a entender o que estava acontencendo. Quando viram, uma massa de estudantes da filosofia deixava o prédio e avançava em direção aos portões do Mackenzie, ameaçando invadir. A briga então tomou as ruas. Quase como numa dança, os estudantes avançavam e recuavam, numa ameaça iminente de invasão mutua.

Com a situação equiparada na rua, a batalha evoluia nas janelas dos prédios. Um professor abriu o laboratório de química do Mackenzie e tubos de ensaio com ácido sulfúrico começaram a voar pela janela. Coqueteis Molotov era jogados do prédio da Filosofia. E as pedras e tijolos continuavam cruzando os ares, de um lado para o outro.

Em meio a todo caos, a Reitora do Mackenzie Esther de Figueiredo Ferraz, uma das primeiras mulheres a se tornar reitora no Brasil e pessoa muito bem relacionada com a Ditadura, chamou a polícia, alegando risco ao patrimônio da universidade. Nem é preciso dizer que a polícia a atendeu prontamente. Por volta das 14h chegavam cerca de cem homens à Maria Antônia, equipados com cassetetes, bombas de efeito moral, máscaras contra gás e gás lacrimogêneo. A filosofia via-se então, espremida entre o CCC e  a Ditadura.

Resistindo à idéia de deixar o prédio, os estudantes da USP iniciaram uma série de reuniões e assembléias que se extenderam até a noite. Cientes da necessidade de politizar o fato, faixas foram erguidas no lado de fora do prédio, com os dizeres “CCC, FAC e MAC = repressão” e “Filosofia e Mackenzie contra a ditadura”. A idéia era esclarecer que a briga não era com os estudantes do Mackenzie e sim contra a ditadura e aqueles que a apoiavam.

As faixas foram prontamente removidas pelos membros do CCC e deu-se inicio então a fase mais tensa da batalha. “Alguém” no prédio da Mackenzie afirmou ter visto um cano de espingarda saindo de uma das janelas do prédio da Filosofia. Bastou para que o CCC carregasse todo o seu arsenal e se dividisse em  vários grupos: Um foi para o portão do Mackenzie e o reforçou com fios de alta tensão. Quem ousasse colocar a mão ali poderia morrer eletrocutado. Outro grupo se dirigiu em direção à consolação, enquanto alguns estudantes ocupavam a Maria Antônia e a Itambé. Por fim, um grupo selecionado, portando armas de fogo, se dirigiu para o telhado. E de lá foi disparado o tiro que matou o estudante Jose Guimarães.

Com Jose Guimaraes morto e o prédio da USP em chamas, as lideranças de esquerda conclamaram os estudantes a deixarem a Maria Antônia para tomar as ruas de São Paulo, em uma das manifestações mais conturbadas que a cidade já viu. A incrível batalha dos estudantes terminou com o CCC cantando o hino nacional em frente à Mackenzie e com os estudantes da USP respondendo com trechos de “Saudosa Maloca”, de Adoniran Barbosa, diante de sua casa, orgulho da esquerda estudantil, destruída.

Outros feitos do CCC

Além de protagonizar a batalha da Maria Antônia, o CCC notorizou-se pelos atentados que cometeu contra a peça de teatro “Roda Viva”, em cidades como Porto Alegre e São Paulo. Na década de 90, a Folha de São Paulo publicou uma entrevista com João Marcos Flaquer, um dos planejadores do atentado ao Teatro Ruth Escobar. Ele conta que o CCC estudou o teatro por cinco semanas e se revesou para adquirir noventa ingressos sem levantar suspeitas. Logo após o fim do espetáculo, os integrantes do CCC invadiram o palco e os camarins, quebraram a aparelhagem de som e deixaram cerca de dezenove feridos. Pela complexidade, esta foi considerada uma das maiores operações do CCC. Já em Porto Alegre a intervenção do CCC se iniciou com a distribuição de panfletos em frente ao Teatro Leopoldina, alertando: “Hoje preservaremos as instalações do teatro e a integridade física da platéia e dos atores. Amanhã não.” O teatro amanheceu pichado com frase do tipo “Fora comunas”, “Chega de Subversão”, “Arte sim, pornografia não”. Estava armado o palco para o conflito.

Após a peça, que segundo o jornal correio do povo “chocou a platéia portoalegrense pela ausência de conteúdo artistico e teor pornográfico”, os atores rumaram a pé, pela Avenida Voluntários da Pátria, em direção ao hotel. Era por volta de 22h da noite e o elenco alcançavam a altura da Dr. Flores, quando cinco carros transportando cerca de trinta homens com cacetetes nas mãos cercaram a rua. Os atores correram para fugir da agressão mas não conseguiram. A fachada do hotel ficou tinta de sangue.

Dois atores entretanto, não tiveram a sorte de encerrar sua noite por ali. Um grupo de homens, se dizendo policiais, pediu que eles comparecessem a uma delegacia para prestar depoimento. Entretanto o veículo ficou horas rodando com os faróis apagados e se dirigiu para um local desonhecido. Neste local, os supostos policiais iniciaram uma guerra de nervos com os atores. Pediram que um deles cantasse “Luar,” uma das músicas da peça. A intimidação terminou com uma lição de moral e um ultimato: O grupo devia deixar Porto Alegre até as 16h do dia seguinte e nunca mais voltar.

O currículo do CCC conta também com o assassinato do Padre Antonio Henrique Pereira Neto, colaborador do Arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara. Um mês antes de sua morte, o Padre Henrique realizou em sua missa uma homenagem ao estudante Edson Luiz (da passeata dos 100 mil) por ocasião de seu primeiro aniversário de morte. No dia 27 de maio de 1969 seu corpo foi encontrado na Cidade Universitária de Recife, com marcas evidentes de tortura: espancamento, queimaduras de cigarro, cortes pelo corpo, castração e ferimentos de arma de fogo.

Atentados a bomba, assassinatos e pichações em igrejas, jornais e universidades. As ações do CCC não pararam. Consta que os períodos mais ativos do CCC foram os que se estenderam de 68 a 70 e de 76 a 80. Deste último período, destaca-se a invasão do Jornal A Tarde, de Belo Horizonte, em repúdio a publicação de uma lista com mais de duzentos nomes de supostos torturadores do regime militar e um cartão de natal, enviado ao músico Chico Buarque, autor de roda viva e de diversas canções críticas à ditadura, com os seguintes dizeres:

“Chico

Você lê jornais? Então sabe que seu ‘pai espiritual’, Fidel Castro, continua libertando milhares de presos políticos. O Brasil tem cerca de 6 e Cuba milhares. Onde há mais liberdade? Você continua sendo o primeiro em nossa relação.

O Comando de Caça aos Comunistas deseja a você, ativista da canalha comunista que enxovalha nosso país, um péssimo Natal e que se realize no ano de 1980 nosso confronto final.”

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Uma resposta a A história do movimento estudantil de direita – IV

  1. Jefferson Rodrigues Barbosa diz:

    Ótimos os quatro textos,
    sintéticos, objetivos e com muitas referências. parabéns. serão lançados mais artigos nesta série?
    sou pesquisador sobre a denominada extrema direita no Brasil. Vc poderia me enviar um e-mail para trocarmos mais informações?
    obrigado.
    J.

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