O bêbado e a equilibrista

O significado da letra

O Bêbado (1- O bêbado representa os artistas, poetas, músicos e “loucos” em geral, que embriagados de liberdade ousavam levantar suas vozes contra a ditadura.)

e a Equilibrista (2- A equilibrista era a esperança de democracia, um projeto de abertura política gradual, que a cada “eleição”, a cada evento que incomodava os militares (passeatas, etc), tinha sua existência ameaçada.)

Caía a tarde feito um viaduto (3- Um viaduto, obra do governo, caiu, desabou sobre carros e ônibus cheios de pessoas, matando muita gente. Na época, nada pôde ser noticiado nem as pessoas foram devidamente ressarcidas ou indenizadas. Cidade de Belo Horizonte, viaduto da Gameleira, década de 70. )

E um bêbado trajando luto (4- Referência aos militantes de esquerda que foram “sumidos” ou declaradamente assassinados sob tortura.)
me lembrou Carlitos

A lua (5- A lua representa os políticos civis que se colocaram a favor do regime, a fim de obter ganhos pessoais. Eles “acreditavam” tanto na propaganda oficial que se dizia que se um general declarasse que a lua era preta eles passariam a defender tal tese como verdade absoluta. Em determinada época foram até chamados de luas-pretas.)

tal qual a dona do bordel (6- A Câmara de Deputados e o Senado foram algumas vezes comparados a bordéis devido aos negócios imorais que lá se faziam. É claro que os cidadãos indignados não podiam dizer claramente que pensavam isto, ou seriam no mínimo processados por calúnia, injúria, difamação e etc.)

Pedia a cada estrela fria (7-As estrelas são os generais, donos do poder. Alguns deles nunca apareceram como governantes, preferindo manipular nos bastidores. Se contentavam com uns poucos privilégios astronômicos e umas ninharias de cargos de direção em estatais ou o poder de nomear umas poucas dezenas de parentes e correligionários em empregos públicos.)

um brilho de aluguel (8- O brilho de aluguel era, como mencionado acima, os ganhos pessoais e até eleitorais obtidos pelos civis que aceitavam ser marionetes. Alguns destes civis cresceram tanto que altrapassaram em poder os seus “criadores” fardados.)

E nuvens (9- Os torturadores são aqui comparados a nuvens, pois eram intocáveis e inalcançáveis.)

lá no mata-borrão (10-  O mata-borrão é um instrumento antiquado destinado a eliminar erros, borrões na escrita. O DOI-CODI, nossa temível polícia política da época era o mata-borrão do regime (instrumento antiquado destinado a eliminar erros).

do céu (11- As prisões eram inalcançáveis ao cidadão comum, inacessíveis, por isso a comparação com o céu. )
Chupavam manchas (12- Os rebeldes são comparados a manchas, ou seja um erro na escrita, uma coisa fora da ordem, uma indisciplina.)

torturadas (13- Referência à tortura aplicada aos militantes de esquerda, que ocorria às escondidas. O regime jamais admitiu que torturava pessoas, porém nunca houve punições aos casos que conseguiam alguma divulgação, apesar da censura à imprensa.), que sufoco louco

O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil (14- Os artistas nunca se calaram. Esta música, ele própria é uma das irreverências.)

Pra noite do Brasil (15- Um tema recorrente nas músicas da época. A volta das liberdades políticas é comparada ao amanhecer, bem como a ditadura é comparada à noite.),
meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil (16- O Henfil (Henrique Filho) era um afiadíssimo cartunista político muito visado pelo regime, bem como seu irmão o Betinho, que no governo Fernando Henrique organizou o programa de combate à fome. Os dois eram hemofílicos e morreram de Aids.)

 

Com tanta gente que partiu (17- Referência aos exilados políticos.)
num rabo-de-foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil

Choram Marias e Clarisses (18-Maria é a esposa do operário Manuel Fiel Filho morto sob tortura nos porões do DOI-CODI (SP) em janeiro de 1976 e Clarice é a esposa do jornalista Wladimir Herzog, também morto sob tortura, no DOI-CODI (SP) em outubro de 1975.)
no solo do Brasil.

Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente
A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Recebido por e-mail, pelo boletim “Carta O Berro”

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2 respostas a O bêbado e a equilibrista

  1. Belíssimo post, Diângeli!

    Analisando as metáforas por trás da famosa canção (Nossa! Nunca tinha feito essa leitura de “O Bêbado e a Equilibrista”) dá para perceber o porquê ela foi eleita pelo povo brasileiro como um dos hinos do movimento pela anistia.

    Lendo esse texto eu me lembrei do documentário “Elis Regina Contra a Espada”, transmitido inicialmente pela TV Câmara (presente nesses links: http://www.youtube.com/watch?v=R819bF_hAGA e http://www.youtube.com/watch?v=pHg8AjPvZMw&feature=related) que tenta explicar um pouco da posição política de Elis durante o período da ditadura militar. O vídeo é legal de ser visto seja para entender um pouco das polêmicas que rodam Elis, ver o próprio Henfil falando dessa canção ou simplesmente para curtir a voz inconfundível da cantora.

    Sempre muito bom passar por aqui. Quis compartilhar um pouco também. Acho que vou ouvir Elis agora. Bateu uma vontade… hehehehe!

    Um grande abraço

  2. dsoares08 diz:

    Adorei a indicação do documentário! Vou assistir e depois te conto o que achei.

    Eu tb nunca tinha feito essa leitura da musica. Eu sempre associei o viaduto com uma questão mais visual mesmo. Quando voce passa por baixo de um viaduto, de carro, ele “cai” rápidamente sobre você, mudando de forma súbita a paisagem, então sempre achei que a poética da coisa fosse por esse linha. E mesmo coisas bastante óbvias como as estrelas frias e o brilho de aluguél haviam me passado batidas.

    Um abração pra você

    ah, e ouvi bastante Elis depois de atualizar esse post ontem de noite…😉

    Beijocas!

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