A história do movimento estudantil de direita – III

Estudantes Integralistas: Os Centros Culturais da Juventude

O jovem deve construir-se primeiro, para depois pensar em construir a sociedade. A autoconstrução não se faz nas praças públicas nem no fragor das manifestações coletivas; pelo contrário, forja-se no estudo, na meditação, na discussão, na troca de idéias
Plínio Salgado em “A verdadeira missão da juventude” – 1957

Por Diângeli Soares

O Integralismo foi um movimento político surgido durante os primeiros anos da república brasileira, fortamente influenciado pela experiência fascista de Mussolini, na Itália. Foi um dos mais expressivos movimentos de massa do país, contando, em seu auge, com cerca de 800 mil filiados. Para se ter uma idéia da dimensão, este número se aproxima do total de filiados ao Partido dos Trabalhadores em 2002, à época da primeira eleição de Lula.

A história do integralismo é descrita em três fases: A primeira é a fase de vigência da AIB e vai de 1932, ano de lançamento do “Manifesto à nação brasileira” até 1937, quando Vargas declara estado de emergência e caça as organizações políticas. A segunda fase se inicia em 1946, com o fim do estado novo e vai até a morte de Salgado, em 1975. Esta fase é marcada pela fundação do PRP – Partido de Representação Popular, onde os integralistas atuam até o Golpe Militar de 64. Após o golpe, Plínio Salgado e outros integralistas passam a integrar a ARENA, partido de sustentação da ditadura. A terceira fase se inicia após a morte de Salgado se estende até a atualidade.

Plínio Salgado e os integralistas buscaram desde os primeiros anos integrar-se com a juventude. No artigo “Três gerações”, escrito em 1968, Salgado descreve a sua influência na juventude e a divide em três gerações distintas, destacando que a terceira é a que ele estava preparando já naquele momento, em plena vigência da ditadura militar. Resgatando as palavras do professor Godofredo da Silva Teles Jr., para referir-se a si mesmo como “o homem que veio para cansar gerações”, Salgado conta como suas palestras nos anfiteatros universitários empolgavam a juventude na década de 30 e ajudavam a arregimentar importantes quadros para o movimento integralista. Desta época, ele destaca uma conferência realizada na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, que lhe rendeu nomes como Alfredo Buzaid e Miguel Reale, “pais” do Código de Processo Civil e da Teoria Tridimensional do Direito, respectivamente.

A segunda geração descrita no artigo de Salgado é, entretanto, a mais prolífica de todas. É a que surge durante a segunda fase do movimento integralista brasileiro, marcada pela juventude Águia Branca e pelos Centros Culturais da Juventude. É um movimento cujo apogeu foi alcançado na década de 50, mas cujas raízes remontam à década anterior, com o PRP e a juventude populista.

O Partido de Representação Popular contava, no final da década de 40, com uma Secretaria de Arregimentação Estudantil. A secretaria tinha por objetivo preparar os estudantes para constituírem uma elite “esclarecida”, capaz de dirigir o país. A Secretaria de Arregimentação Estudantil mantinha uma coluna fixa no semanário “Idade Nova”, principal jornal partidário do PRP, mas sua mais importante realização foi o I Congresso Nacional dos Estudantes Populistas.

O I Congresso Nacional dos Estudantes Populistas foi realizado em Campinas-SP, em Julho de 1948. Foi aberto pelo próprio Salgado e descrito como um encontro “apolítico”, voltado para estudos técnicos que tinham por objetivo formar “homens de estado, para o futuro da nação”. O regimento interno do congresso não permitia “discusserias ocas; ao gosto da oratória de praça pública”, como explicam os integralistas no Boletim do PRP de 07 de Outubro de 1948:

“Ninguém vai à Campinas para exibir lantejoulas e sonoridades de velho estílo tribunício, onde o brilho das palavras e a modulção da voz julgam suprir as deficiências do pensamento e a indigência da cultura. O Congresso Nacional dos Estudantes Populistas não é um instrumento de mera propaganda partidária, nem tampouco uma Assembléia com o objetivo de fazer barulho, de alardear pretígio, de acirrar os ânimos dos brasileiros e de outros partidos. O Congresso quer ser, com austeridade e honestidade, uma grande escola de preparação dos futuros estadistas do Brasil”

A aversão à agitações era evidente no discurso de Salgado. No texto “Notas à margem do Congresso”, publicado em 1948 no Idade Nova, Salgado destaca o caráter ordeiro do encontro de Campinas:

“As sessões do Congresso, longe de apresentarem o aspecto desordenado e barulhento das assembléias demagógicas e pletóricas de moções, manifestos, protestos, agressividade contra adversários, discussões estéreis e discussões vazias, impressionavam pelo caráter de seriedade.”

Participaram do Congresso de Campinas 632 estudantes, oriundos de mais de 200 escolas do Brasil. Vale destacar também, que o Congresso dos Estudantes Populistas rendeu ao movimento estudantil integralista um “Código de Ética do Estudante”, redigido em 1947 no Rio de Janeiro, em um conclave preparatório para o Congresso de Campinas. O texto é assinado pelo próprio Plínio Salgado, mas os estudantes reivindicam uma elaboração coletiva.

Já em 1952, surgem os Centros Culturais da Juventude, organizados na Confederação dos Centros Culturais da Juventude. É o nascimento dos Águias Brancas e de uma militância independente do PRP, com quem os estudantes se atritavam com freqüencia. A juventude dos centros terá importante participação na campanha presidencial de Plínio Salgado em 1955, ano em que o líder integralista perde o pleito para Jucelino Kubitschek, da coligação PSD-PTB. Os estudantes se dedicaram com afinco à campanha de Salgado, divulgando seu nome e sua doutrina em viagens por todo o Brasil.

A Confederação dos Centros Culturais da Juventude iniciou seus trabalhos contando com 16 centros, mas em seu ponto alto reuniu mais de 500. Foi a época da presidência de Gumercindo Rocha Dórea, fundador da G.R.D, uma editora que apoiou o golpe militar e publicou livros em parceria com o IPÊS. Um dos livros publicados pela G.R.D foi “UNE – Instrumento de Subversão”, de Sônia Seganfreddo, em 1963, discutido no último artigo desta série. Após a instalação da Ditadura Civil-Militar no Brasil, os Centros Culturais da Juventude continuaram se organizando. No Artigo “Três Gerações”, Salgado cita uma concentração realizada em Campos do Jordão, no dia 07 de Setembro de 1967, que contou com a participação de cerca de 200 rapazes e moças.

Anos após a morte de Salgado, os já ex-Águias Brancas mantiveram-se fiéis ao seu lider e foram responsáveis pela preservação de seu legado. Em 1981, fundaram em São Paulo a Casa Plínio Salgado, com o objetivo de abrigar um acervo bibliográfico de obras integralistas e organizar reuniões para estudar e debater as questões do movimento. Após a redemocratização, os integralistas voltaram a discutir a refundação da AIB. Um debate acalourado que já havia sido realizado em 1945, quando da redemocratização pós-Estado Novo, foi retomado: Os integralistas brasileiros deveriam fundar um partido? Alicerçados na essência “anti-liberal” da Doutrina do Sigma, bastante refratária à partidarização, venceu a tese contrária ao registro formal.

Os integralistas brasileiros mantém atualmente a sua organização, ainda que fragmentados após algumas cisões ocorridas no final da década de 80. Durante o pleito presidencial de 2010, o movimento voltou ao noticiário nacional, no contexto da campanha reacionária do candidato José Serra. Apesar do alarde, os integralistas negam apoio ao PSDB ou ao seu candidato.

A FIB – Frente Integralista Brasileira, é hoje uma das principais organizações integralistas do Brasil. Há, entretanto outra organizações, como as “Brigadas Integralistas”, que se reivindicam do tradicionalismo militar. Recentemente, as Brigadas romperam com a FIB por divergências internas e renunciaram à nomenclatura para se dedicar ao que julgam ser essencial na Doutrina do Sigma, o Nacionalismo. Mas avisam: Os integralistas continuarão marchando. Silenciosamente.

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Os outros dois artigos da Série Especial de Dois Pontos: Travessão – A História do Movimento Estudantil de Direita.

Fascimo e juventude: Assista os filmes “A Onda” e “Vincere”

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