Livro – Os espiões

Os espiões

Luis Fernando Veríssimo, Brasil, 2009

Sinopse: Formei-me em letras e na bebida busco esquecer. Assim se apresenta o protagonista do livro, um editor de meia idade, cujas ressacas transformam em lixo tudo o que cair sobre sua mesa nas segundas-feiras. Como ele mesmo diz, poderia receber “Guerra e Paz” em uma segunda-feira e mesmo assim ela terminaria na lata do lixo. Cervantes? Desista, hombre. Flaubert? Proust? Não me façam rir. Nem mesmo Le Carré, seu ídolo, escritor de romances policiais, escaparia de sua amargura em uma segunda-feira. Eis que, no entanto, em uma terça-feira, chega à editora onde trabalha um envelope branco, redigido com uma caligrafia trêmula, trazendo as primeiras páginas de um livro cuja história parece real. Seriam as confissões de Ariadne – uma florzinha desenhada no lugar do pingo do “i” – proeminente moradora da cidade de Frondosa, interior do Rio Grande do Sul. Mas onde mesmo fica Frondosa? Quem será o amante secreto a que Ariadne se refere? E quem são “eles”, contra quem ela promete vingança, através da publicação de seu livro? O mistério de Ariadne irá mudar drásticamente a rotina de um grupo de homens – figuras insólitas – que passam seus dias bebericando e discutindo literatura no bar do espanhol. Juntos, montam a “Operação Teseu” e resolvem salvar a autora desconhecida do cruél destino que ela impôs a si mesma: O suicídio.

O escritor: Dispensável apresentar o autor do livro, Luis Fernando Veríssimo. Mas vale o tópico para recomendar o perfil dele no terra e a leitura do pai, Érico Veríssimo, grande escritor, que me parece que apenas os gaúchos lêem. Uma coisa interessante também, sobre “Os Espiões”, é que o Veríssimo diz que este foi o primeiro livro que ele escreveu “por impulso próprio”. Para entender melhor como foi isso, vale a leitura deste artigo, onde o autor conta que este livro “ele encomendou a ele mesmo”.

O texto: Divertidíssimo, leve, gostoso e rápido. Eu li esse livro praticamente em um plantão. Fazia muito tempo que eu não lia um livro em um, dois dias.

Curiosidades&Contexto: Ariadne, nome “emprestado” à misteriosa escritora de Frondosa, é uma figura da mitologia grega. Ariadne era filha do Rei Minos, de Creta. O mito conta que Minos pediu à Poseidon que lhe desse um touro branco como a neve, em sinal de aprovação de seu reinado. Se vencesse a disputa pelo trono com seus irmãos, Minos deveria sacrificar o touro e oferecê-lo em agradecimento à Zeus. Mas Minos rompe sua promessa e a deusa Afrodite faz com que sua esposa, Pasífae, se apaixone perdidamente pelo touro. Pasífae, apaixonada, pede a Dédalo, notável arquiteto e inventor, que lhe faça uma vaca oca de mandeira, para que possa copular com touro branco de Minos. O resultado da união não natural de Pasífae com o touro foi uma aberração: O Minotauro. O próprio Dédalo construiu, então, um labirinto, próximo ao palácio, para abrigar a criatura.

Anos mais tarde, Androgeu, filho de Minos, é assassinado por atenienses que ficaram com inveja de sua vitória nos jogos panatenaicos. Para vingar a morte do filho, Minos declara guerra à Atenas e vence o confronto. Como punição, o Rei Egeu, de Atenas, precisa enviar rapazes e moças atenienses à creta, para serem sacrificados em um banquete oferecido ao Minotauro. Eis, então, que surge na história o jovem Teseu, filho do Rei Egeu. Teseu promete ao pai matar o monstro e, caso seja vitorioso, promete voltar à Atenas com velas brancas em seu barco. Se for derrotado, seu navio retornará com velas negras. Em Creta, Ariadne, filha de Minos se apaixona por Teseu. Temendo a morte de seu amado, Ariadne entrega a Teseu um novelo para orientá-lo dentro do labirindo. Teseu parte, então, para se confronto com a fera segurando uma ponta do novelo. Na outra ponta, está Ariadne, segurando o fio para que Teseu não se perca. Teseu mata o minotauro com a espada de Egeu e, com ajuda de Ariadne, consegue sair do labirinto.

A história poderia ter acabado por ai, caso a autoria fosse de Hollywood. Mas sendo uma história grega, é claro que tem mais. No retorno para Atenas, Teseu esquece de levantar as velas brancas. O Rei de Atenas se desespera, pois acredita que o filho foi derrotado pelo minotauro. Ao invés de esperar o navio chegar na costa, o pai de Teseu se suicida, atirando-se no mar. O mar até hoje leva o nome do Rei de Atenas, cujo filho venceu o minotauro. É o mar Egeu.

A história do livro guarda milhares de paralelos com a história original. A mais evidente é a identificação do personagem principal com Teseu. Ele se sente ligado à sua Ariadne como por um “fio”, da mesma forma que Teseu. A única diferença é que ela parece guiá-lo para dentro do labirinto, e não para fora.

Quem vai gostar: Honestamente, tenho dificuldade de imaginar um perfil de leitor que não se divertiria muito com a leitura. Acho que este é um daqueles raros casos de consenso. Iria mais longe: bom presente de natal, com pouquíssima chance de errar.

Presentinho: Para finalizar este post, vou oferecer um “brinde” para os leitores de Dois Pontos: Travessão. O brinde está aqui neste link (ou em vídeo)e se chama “O quase”. “O quase” é um texto atribuído à Luis Fernando Veríssimo, mas ele mesmo negou sua autoria em artigo escrito à Zero Hora em 31 de Março de 2005. Não é um texto do Veríssimo, mas é uma boa história do Veríssimo para contar porque eu, por acaso, conheci a autora d´O Quase! A autora deste belíssimo texto – que cinco anos depois ainda circula na rede com autoria atribuída ao Veríssimo – foi escrita pela jovem estudante de medicina da FURB Sarah Westphal Batista da Silva. A Sarah escreveu “O Quase” quando tinha vinte um anos e e ele logo virou fenômeno. Talvez pela semelhança de estilo – eu não vejo muita, mas quem sou eu? – ou pela grande qualidade do texto, a autoria caiu no colo do Veríssimo. Vale a pena uma leitura. Não sei por onde anda a Sarah hoje em dia. A última vez que nos vimos foi no inesquecível EREM Blumenau (2006), que ela, como membro do queridíssimo CAMBLU, ajudou a organizar. A última notícia que tive foi que havia desistido da medicina. Uma pena. Tomara que continue por ai, escrevendo coisas tão belas quanto essa. Curtam a dica e por onde você estiver Sarah, um grande beijo pra você😉

Leia também: Os espiões da vida real – A ex-espiã russa Anna Chapman, deportada em julho dos EUA à Rússia, foi eleita para ocupar um cargo de alto escalão na ala jovem do partido do premiê Vladimir Putin. Confira aqui.

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3 respostas a Livro – Os espiões

  1. Alexandre diz:

    Grata surpresa em ver a tua postagem até pq comecei a ler o livro ontem. Os Veríssimos são grandes expoentes da nossa literatura. A Veja prestava um pouco quando tinha uma crônica do Luis Fernando, o mesmo vale para a Zero Hora.

    A leitura desse livro, como todos do Luis Fernando Veríssimo é prazerosa e instigante. Ele é dono de um humor inteligente, coisa rara atualmente. Realmente vale a pena.

  2. dsoares08 diz:

    Vale a pena sim. Eu sou leitora assídua das crônicas do veríssimo na zero hora, mas nunca tinha lido nenhum livro dele. To afim de repetir a dose. Acho que o próximo vai ser “O opositor”, uma novela policial escrita para uma série sobre os dedos da mão. O veríssimo ficou com o polegar e escreveu esse livro🙂 No mínimo curioso!

    http://literal.terra.com.br/verissimo/biobiblio/oslivros/popup/popup_opositor.htm

  3. Rachel diz:

    Oi! Eu li esse livro deve ter mais ou menos um ano….. é mesmo uma leitura rápida e prazerosa, vale a pena!
    BJO

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