A história do movimento estudantil de direita – II

Força Feminina no Golpe

A propaganda política de Sonia Seganfreddo na coletânea “UNE – Instrumento de subversão”

Por Diângeli Soares

As mulheres tiveram importante participação nas movimentações políticas que antecederam a deposição de João Goulart. Unindo os valores cristãos e a defesa da família à luta anti-comunista, a Dona de Casa urbana foi eleita, pelas forças de Direita, símbolo da oposição ao governo. A ela cabia combater o comunismo ateu e evitar que seus filhos se desviassem da moral e da ordem, como conta Mateus Gamba Torres, em seu artigo “Lutar para manter, lutar para romper: As mulheres e a Ditadura Militar brasileira”. Algumas das siglas que exemplificam a participação feminina neste período são a CAMDE – Campanha da Mulher pela Democracia, a LIMDE – Liga da Mulher pela Democracia e a UCF – União Cívica Feminina.

Dentro do espectro da atuação estudantil, destaca-se uma coletânea de artigos escrita em 1962, pela estudante de filosofia da Universidade do Brasil (hoje UFRJ), Sonia Seganfreddo. Sonia conta que ingressou no curso pré-vestibular da Faculdade Nacional de Filosofia em 1958, tendo, desde então, contato com o que chama de “catequização comunista”, empreendida por professores e elementos infiltrados da UNE. Em 1962, após anos de embate com a esquerda estudantil, Sonia rompe com o movimento grevista que visava a conquista de um terço das vagas nos conselhos universitários para representação estudantil. Era a famosa “Greve por 1/3″, conduzida pela UNE, no final da marcante gestão de Aldo Arantes

Após romper com a Greve por 1/3, Sonia foi convidada pelo jornalista Paulo Vial Corrêa, para escrever uma série de artigos sobre “a propaganda e a atividade comunista no meio estudantil”. Nascia assim, a série de 15 reportagens publicadas sob o título de “UNE – Menina dos olhos do PC”, que no ano seguinte viria a dar origem ao livro “UNE – Instrumento de Subversão”. O livro de Sonia Seganfreddo foi publicado pela Editora GRD, de Gumercindo Rocha Dórea, antigo diretor dos Centros Culturais da Juventude, organização que tinha o Integralista Plínio Salgado como seu Presidente de Honra. A GRD publicou também livros em parceria com o IPES – Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais e diversos títulos pró-golpe, após a instalação da Ditadura Civil-Militar no Brasil.

O livro de Sonia pode ser dividido em três partes. Na primeira, a autora faz uma introdução, apresentando a União Nacional dos Estudantes como uma organização política, que a age a serviço do comunismo internacional e cujas atividades nada tem a ver com a real e legitima representação estudantil. Para expor suas idéias, Sonia se vale de sua própria experiência junto à esquerda universitária, desde o seu ingresso no curso pré-vestibular da Universidade do Brasil. Ao expor sua trajetória, a estudante acaba revelando também elementos importantes de sua forma de ver o mundo, o que contribui para que o leitor compreenda de onde partem muitas de suas críticas. Neste sentido, um dos elementos mais marcantes que Sonia “deixa escapar” é a compreensão que tem do papel da mulher na sociedade e do que é, ou não, adequado para o seu gênero. Em suas própria palavras, Sonia exemplifica:

“(…) obrigada a participar da arruaça contra o BNDE, recusei-me determinantemente, alegando que não era aluna da Faculdade, não conhecia a questão e nem considerava próprio moças participarem de movimentos de rua”

“Nas assembléias universitárias os elementos comunistas sempre estão presentes e conseguem tomar conta dos trabalhos devido à persistência e ‘enrolação’ que adotam. (…) Os democratas na hora da votação não estão mais na assembléia, devido ao adiantado da hora, principalmente em se tratando de moças.”

“A aluna esquerdista é de grande importância na escola para a obra de catequese. Quando bonita, atrai os rapazes por meio de atitudes masculinas de absoluta independência, concedendo-lhes toda a série de facilidades e participando de noitadas alegres.”

Sonia também caracteriza a UNE como uma entidade que inverte valores morais e agride instituições como a família e o matrimonio:

“Quando a confiança entre mestre e discípulo é absoluta, entra a parte moral. Família, sociedade, casamento são meios de impedir a verdadeira evolução social. São hábitos burgueses que devem ser abolidos.”

Já na segunda parte do livro, a autora faz um competente trabalho resgate da história da União Nacional dos Estudantes. Com base em Relatórios de Gestão, boletins oficiais da UNE e de matérias publicadas na imprensa, Sonia reconstitui os passos da entidade, desde a sua fundação em 1937, a partir da Casa do Estudante do Brasil. Sonia exalta a origem da UNE e o caráter “apolítico” que marcou os seus primeiros anos.  Uma das primeiras deliberações da recém fundada agremiação foi a proibição às referências político-partidárias, durante as reuniões do Conselho Nacional dos Estudantes. Este fato é destacado pela estudante.

Esta parte do trabalho de Sonia, que se desenvolve ao longo dos artigos II, III, IV e V, é de grande valia para todos que se interessam pela história do Movimento Estudantil. Ainda que a narrativa esteja impregnada da visão política de Sonia (qual narrativa não está?), a reconstituição histórica da UNE se dá de forma consistente, com fontes fidedignas e boa sistematização cronológica. E com uma vantagem: Olhar 25 anos de história no passado é mais fácil do que olhar 70. Por mais que consultemos hoje personalidades da época, a riqueza dos detalhes e clareza acerca de como determinados fatos se ligaram entre si, de forma a constituir um processo lógico, capaz de explicar fenômenos políticos, se perde com o tempo. Assim, Sonia deixa nestes artigos, uma contribuição que acaba extrapolando a mera função de instrumentalizar aqueles que compõem o seu espectro ideológico.

Na terceira e última parte, Sonia se dedica à uma narrativa mais pormenorizada dos eventos da Greve por 1/3 e de outros acontecimentos que marcaram a conjuntura política do Movimento Estudantil nos anos de 1961 e 1962. É neste momento que a autora desenvolve de forma mais aprofundada a tese-título do livro, correlacionando os dirigentes da UNE à Cuba e ao Governo brasileiro, principalmente através do ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros. O ISEB, convém explicar, era um órgão autônomo, ligado ao Ministério da Educação, que foi criado em 1955, com o intuito de estabelecer no Brasil, um centro de estudos capaz de produzir conhecimento de alto nível, à exemplo de Institutos já existentes na Europa e nos Estados Unidos. Politicamente, o ISEB servia como centro difusor do desenvolvimentismo nacionalista de Jucelino Kubitchek e abrigava alguns elementos de inclinação socialista em seu interior.

A denúncia da linha política adotada pelo ISEB e de sua relação com a UNE – Sonia destaca que os Presidentes do ISEB sempre se faziam presentes nas manifestações promovidas pela entidade – além das críticas feitas ao apoio financeiro que o governo dava para as peças “subversivas” do recém criado CPC – Centro Popular de Cultura e para o envio de delegados à congressos estudantis internacionais “dirigidos por Moscou”, alinham as críticas de Sonia ao intento golpista de outros setores da sociedade, como o IPES e o IBAD. Afinal, Sonia aponta a UNE como um dos mais poderosos instrumentos de infiltração comunista no Brasil e a liga diretamente ao governo que os golpistas tentam derrubar. Assim, a propaganda Anti-UNE de Sonia, acaba se inserindo em um processo muito mais amplo de disputa social, que culminará no regime supressor das liberdades que se instalará no país após 64.

Leia também, o primeiro artigo da Série: O Grupo de Ação Patriótica – Almoçar os esquerdistas antes que eles nos jantem

Texto na íntegra do livro “UNE – Instrumento de subversão”

Gosta de história do ME? Leia também O Movimento Estudantil de Medicina e a Criação do SUS: uma História na Luta pela Saúde

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5 respostas a A história do movimento estudantil de direita – II

  1. Parabéns Di por mais um artigo que contribui com o resgate da história do ME! Que peça esse livro hein? Vou ter que ler ele nas férias.
    Excelente artigo mesmo.
    Beijoca!
    Bruna

  2. dsoares08 diz:

    Desde que escrevi o texto sobre o GAP, tenho me comunicado por email com Aristóteles Drummond, um dos expoentes daquele movimento. No último email, escrito para agradecer uma remessa de livros seus que ele me enviou, perguntei se por acaso ele e Sonia Seganfreddo não teriam se conhecido, já que foram contemporâneos no Rio de Janeiro. Não encontrei qualquer tipo de informação sobre o que aconteceu com Sonia após a publicação de seu livro. Há uma Sonia Seganfreddo que publicou um livro sobre Direito, que recebeu um prêmio da OAB em 1979, mas não sei se se trata da mesma Sonia, já que esta cursava filosofia. Recebi a seguinte resposta ao meu email, que não me esclareceu sobre o paradeiro de Sonia, mas adicionou informações muito interessantes à este artigo:

    “Não a conheci , mas o GAP distribuiu mais de 20.000 exemplares deste livro . Aliás o nosso maior “trabalho de campo” era justamente distribuir livros que nos eram fornecidos ou pelo IPES , alguma coisa pelo IBAD e até pelo USIS , serviço de divulgação cultural das embixadas americanas . Mas livros que nos interessavam, que distribuiamos sem nenhum tipo de remuneração é claro . A Sonia escreveu o livro , com base nas reportagens dos Diários Associados e voce vai ver no meu livro que o me primeiro agradecimento foi justamente para Paulo Vial Correa , meu diretor em O JORNAL , onde iniciei a vida de jornalista . A sugestão da coleção da BIBLIEX é válida, mas o meu depoimento eu transcrevi no meu ultimo livro . Leia nesta quinta no dcomercio.com.br – parte de opinião – meu aertigo sobre a tentaiva de se apagar a Intentona da historia e esta exaltação da Revolta da Chibata , ambos movinmentos que assassinaram miliotares. Que país!!!!!! até breve Aristoteles- (…)”

  3. mohamedali diz:

    caralho… será que essa vagabunda ainda tá viva?!?!

    ela tinha que ter o mesmo destino do boilesen!

  4. Mateus Capssa diz:

    Muito bom!
    Atualmente pesquiso o movimento estudantil de direita no Rio Grande do Sul nos anos 1960 para minha dissertação de mestrado.
    É um assunto ainda muito pouco estudado.
    Parabéns.

    • dsoares08 diz:

      Mateus, muito obrigada pelo seu comentário, adorei ele e já havia lido há um tempão, mas ainda não tinha tido tempo de responder. Realmente é um assunto muito pouco estudado e é muito animador saber que você pretende trabalhar o assunto no seu mestrado. Acho o tema importante, dado esse fenômeno recenete do “novo movimento estudantil”, que tem representação no MEL, no NOVE e outros grupos conservadores que se diferenciam – pelo menos em origem – de outras direitas, como a máfia do DCE da PUC, por exemplo.
      Quando você acabar essa tese, por favor compartilhe conosco. Aliás, se quiser, lembre aqui do blog para divulgar o dia da sua defesa!
      Um grande abraço!

      Didi

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