Para debate: Voto nulo

A Postura infantil do esquerdismo

Március Alves Crispim

Não há dúvidas de que o horizonte do governo Dilma não é de rompimento com a ordem capitalista, nem tampouco há interesse e correlação de forças que propiciem reformas estruturais. Não há dúvidas, porém, de que há diferenças entre os dois projetos políticos em disputa nesse segundo turno das eleições. E frente a eles é que temos de nos posicionar.

Serra representa, por sua campanha, pelo seu governo no estado de São Paulo e pelos oito anos de governo FHC, o conservadorismo. O caráter conservador e anti-popular dos partidos que compõem sua aliança eleitoral fizeram com que todos os movimentos sociais (pelo menos, os mais importantes) se convencessem de que uma possível vitória sua significará um retrocesso para as conquistas democráticas e uma maior subordinação ao imperialismo.

Acontece que no Brasil ainda existe uma pequena parcela da esquerda que defende o voto nulo e que vem a público afirmar não existir diferença substancial entre Dilma e Serra, entre o “lulismo” e o conservadorismo. Alguns chegam ao cúmulo de afirmarem que um governo do PT é mais danoso aos trabalhadores do que um governo conservador, e chegam quase a pedir o voto na direita conservadora numa “sugestão” de que um governo tucano acelerar-se-ia o processo de unificação dos trabalhadores, que teriam um inimigo mais claro no próximo período.

Esse pensamento possui inúmeras imprecisões políticas, que só fazem colocar o movimento revolucionário mais afastado das massas e de uma linha correta de atuação. O trágico nesse raciocínio é que ele já foi empregado no passado, com resultados históricos e debates políticos, que alguns parecem haver esquecido. Aqui trago dois momentos deste debate.

Num dos textos clássicos de Lênin, “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, escrito em abril de 1920, o revolucionário russo tentou resumir as lições que o Partido Bolchevique tirou do seu envolvimento em três revoluções no espaço de doze anos e apresentá-las de forma própria para os Comunistas Europeus, já que era a eles que se dirigia.

Deste texto podemos tirar lições valiosas sobre a atuação dos revolucionários, onde se realça que os principais perigos para o movimento operário provêm tanto do oportunismo reformista, de um lado, quanto do doutrinarismo de extrema-esquerda, de outro.

No debate que realizou com os revolucionários ingleses, Lênin relata que os esquerdistas daquele país eram resistentes a qualquer aliança eleitoral com o Partido Trabalhista, no qual estava presente a maior parte dos operários, e que representava o reformismo dentro do movimento operário inglês. Tal posição esquerdista Lênin sintetizava na seguinte fala de uma liderança:

O Partido Comunista não deve assumir compromissos… deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; sua missão é marchar na vanguarda, sem deter-se ou desviar-se de seu caminho, avançar em linha reta em direção à revolução comunista”.

Porém, o revolucionário russo estava ciente de que tal tática continha erros, de que era infantil, de que não se traduzia numa postura séria. E contra-argumentava a posição dos esquerdistas ingleses:

“se somos o partido da classe revolucionária, e não um grupo de revolucionários, se queremos atrair as massas (sem o que corremos o risco de não passar de simples charlatães) devemos: em primeiro lugar, ajudar Henderson e Snowden (reformistas) a vencer Lloyd George e Churchill (conservadores)… em segundo lugar, ajudar a maioria da classe operária a convencer-se por experiência própria de que temos razão, isto é, da incapacidade completa dos Henderson e Snowden, de sua natureza pequeno-burguesa e traidora, da inevitabilidade de sua falência…”

Nos anos 30, os comunistas alemães também não enxergavam diferenças entre os social-democratas e os nazistas. Ambos mereceriam a confiança do sistema capitalista, estariam propensos a servir a tal sistema. Havia naquela época, inclusive, correntes entre os revolucionários que consideravam positiva a derrota dos social-democratas e a vitória dos nazistas. Supunham que isso permitiria libertar os trabalhadores das ilusões reformistas e levá-los à luta contra o sistema capitalista. As conseqüências desse tipo de avaliação, e que permitiram a vitória de Hitler, todos sabemos. Foram terríveis para os trabalhadores e para a humanidade.

No primeiro turno das eleições brasileiras de 2010 houve várias candidaturas de esquerda, que se dispuseram a fazer divulgação das idéias socialistas. E isso foi extremamente saudável para os trabalhadores. Porém, imediatamente findo o primeiro turno, me surpreendeu a postura infantil de algumas organizações e personalidades, que passaram a defender o voto nulo. Ou a darem um apoio tão envergonhado, como tantos “senões”, “porquês” e “talvez” que em determinados momentos fiquei em dúvida se se posicionaram realmente pela candidatura Dilma.

O momento que nos resta dessa campanha é o de nos articularmos enquanto campo próprio dos socialistas. E isso significa centrar nosso ataque na candidatura Serra e, sem meias palavras ou ilusões, apoiar e militar pela candidatura de Dilma – pois esta é a forma concreta e objetiva de derrotar Serra. Ou alguém acha que derrotaremos Serra atrás de computadores escrevendo e redigindo notas que circulam apenas entre a militância?

Não devemos ter posições esquerdistas, como também não devemos ter posições que demonstram vacilação, que não acumulam politicamente para nada e não possuem eficácia eleitoral. Este é momento de derrotarmos Serra, e isso significa irmos às ruas e dizermos ao povo que não queremos a velha direita conservadora dirigindo o país.

E aos que nos contestarem afirmando que essa tática é muito “astuta” ou “complicada”, que não estamos dizendo “toda a verdade” às massas, que melhor é ficarmos quietos, ou atrás de nossos computadores, façamos como Lênin aos esquerdistas ingleses e respondemos:

“E se replicarem dizendo que esta tática é muito ‘astuta’ ou complicada, que as massas não a compreenderão, que dispersará e desagregará nossas forças impedindo-nos de concentrá-las, na revolução soviética, etc., responderei aos meus contestadores ‘de esquerda’: não atribuam às massas o seu próprio doutrinarismo!”

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