Trilogia Millenium

No rastro de Lisbeth Salander

Revista Época, 27 de Março de 2010

Minha grande amiga Rachel me enviou esta reportagem bem bacana da Revista Época sobre a Trilogia Millenium. Como vale a pena e faz dias que eu não atualizo o blog, lá vai:

É amarelo-claro e simples o prédio que fica no número 82 de uma rua quieta do centro de Estocolmo, a bela e gelada capital da Suécia. Quase metade da população de pouco mais de 9 milhões de habitantes da Suécia vive em Estocolmo, um arquipélago composto de sete pequenas ilhas. Dada a modéstia do prédio, não é tão difícil assim imaginar, num país em que tudo parece funcionar automaticamente, que o elevador estivesse pifado numa tarde do final de novembro de 2004. Por volta das 18 horas, um homem de 50 anos, óculos grandes no rosto míope e afável, os cabelos fartos e claros impregnados do cheiro dos Marlboros que fumava à razão de 60 por dia, chegou diante do elevador e, com ele parado, decidiu pegar os degraus da escada estreita e íngreme à direita. Estava indo para o 7º andar, o último, rumo à minirredação da Expo, a revista que fundara em 1995 com o intuito de vigiar os passos da extrema-direita da Suécia.

O homem não chegou ao destino.

O esforço realizado na escada, incomum para um sedentário clássico que, não bastasse a ausência de exercícios, alternava cigarros e cafés em grandes doses, foi demais para seu coração submetido a uma rotina massacrante. Sua jornada de trabalho estava girando em torno de 14 horas diárias. Ali nos degraus, na tarde fria de Estocolmo, ele desabou, vítima de um ataque cardíaco. Foi socorrido, mas morreria poucas horas depois sem jamais haver recuperado a consciência. Era um jornalista de esquerda, neto e filho de comunistas, e não tinha nada ao morrer. O apartamento tímido em que morava com a arquiteta Eva Gabrielsson fazia 30 anos era alugado.

Os documentos em seu bolso traziam o nome do morto: Karl Stig-Erland Larsson. Ou, como ele assinava seus artigos inflamados, Stieg Larsson. Stieg, e não Stig, embora o som seja o mesmo, porque tinha um amigo homônimo, que acabaria virando também escritor. Ele dizia que a alteração fora decidida, entre os dois Stigs, num arremesso de moeda. Vivo, Larsson foi um caso raro de jornalista que, na meia-idade, conserva os ideais igualitários e os sonhos típicos da juventude, entre os quais o de escrever romances.

Morto, virou o protagonista ausente de uma das histórias mais extraordinárias de sucesso na literatura moderna.

Quando morreu, Larsson estava na iminência de ver enfim nas livrarias o primeiro fruto de uma empreitada literária épica a que vinha se entregando, em horas tardias, desde meados da década de 90. O volume inicial da chamada trilogia Millennium, recusada pela primeira editora que ele procurou, seria lançado pouco depois. Foi. O que ocorreu de lá para cá foi um fenômeno em escala global, uma improvável e irresistível “millenniumania”. Iniciada na pequena Suécia, espalhou-se com o vigor de um viking pelo mundo, primeiro na forma de livros e mais recentemente também no cinema. Acaba de chegar ao maior mercado cinematográfico do mundo, o americano, o filme do primeiro livro da série, A menina com a tatuagem de dragão.

Falado em sueco num país em que legendas nos cinemas costumam ser abominadas, o filme foi recebido com entusiasmo quase juvenil pela crítica, pelo público e pela própria comunidade dos diretores de cinema. Um deles lamentou não ter os atributos para fazer a refilmagem hollywoodiana de um filme de ação e se disse obcecado pelos livros de Larsson. O crítico do The Washington Post definiu-o como um dos raros filmes de duas horas e meia em que você não fica olhando para o relógio. No Brasil, a estreia está prevista para 23 de abril. Tanto no livro quanto no filme, foi mantido no Brasil o título do original de Larsson, Os homens que não amavam as mulheres. O nome mais provocativo, com a tatuagem de dragão, foi uma decisão da editora da versão em inglês.

Sob um título ou outro, a obra de Larsson vem fascinando pessoas de todas as partes. Até aqui, foram vendidos 25 milhões de exemplares em 42 países. Se é possível chamar alguém de milionário póstumo, é o caso de Larsson. Ele morreu com a conta bancária seca. Calcula-se que os direitos autorais da trilogia já tenham rendido ao espólio cerca de US$ 30 milhões. Como foi lançado apenas o primeiro filme da série, esse dinheiro vai aumentar consideravelmente. Hollywood fazendo sua versão terá um efeito multiplicador. A lei sueca pune heranças com uma taxação de 50%. Mesmo assim, sobrará um patrimônio exuberante para os herdeiros.

Não chega a ser surpresa, dadas as cifras, a guerra que se trava na Justiça sueca pela fortuna gerada pelo suor e pela imaginação de Stieg Larsson. Ele e Eva, embora juntos desde a adolescência, jamais chegaram a se casar formalmente. A lei sueca não protege cônjuges nessa situação. Em caso de morte de um deles, o outro está habilitado basicamente ao pesar e ao luto, mas não ao espólio. A não ser que haja um testamento. Larsson fez um na casa dos 20 anos. Nele deixava tudo – que era nada – a uma agremiação comunista de sua cidade. O documento não cumpre exigências burocráticas suecas, o que significa que os conterrâneos comunistas de Larsson permanecerão à míngua.

Ele não fez, posteriormente, nenhum outro testamento. É fácil entender por quê. Primeiro, ele não tinha, até o lançamento do primeiro livro, o que legar. Segundo, tinha 50 anos num país em que a expectativa de vida para homens é de 80. Fora isso, como é costume em jornalistas de todo o mundo, era pouco afeito a procedimentos burocráticos. Como o casal não teve filhos, o direito à herança se concentrou no pai e no irmão de Larsson, Erland e Joakim. A luta de Eva tem a simpatia da maioria dos suecos. Para “evitar o papel de vilão”, Erland Larsson ofereceu à ex-nora o equivalente a R$ 7 milhões. Ela recusou. As duas partes trocam acusações e só se falam por advogados. Eva, uma espécie de viú va que virou órfã, escreveu um livro sobre sua vida com Larsson, e ele deverá chegar em breve às livrarias.

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3 respostas a Trilogia Millenium

  1. Sua Grande Amiga Rachel diz:

    Oi Di! Então! Eu li o primeiro livro da trilogia…achei sombrio, meio deprê…deve ser o clima da Suécia hahahahaha e um pouco cansativo, MAS é interessante. Não comprei os outros livros e nem sei se vou comprar.
    Eu comprei o livro do Hugh Laurie (o médico House da série “House”) “O vendedor de armas”. Espero que seja bom!!! (detesto comprar livro +ou- ou ruim)
    BJO!

  2. dsoares08 diz:

    Guria é isso, quando tu termina de ler o livro tu chega a suspirar. É um calhamaço, enooorme, mas é bacana. Assiste o filme, o filme é uma delícia. Eu quero ler esse do Hugh Laurie tb, eu ja li a orelha dele e parece super bacana. Tu sabe um livro que eu to doida pra achar mas nao acho de jeito nenhum? “Velocidade”. Saca só o resumo:

    “Se você não levar esse bilhete para a polícia, eu vou matar uma adorável e loira professora. Se você levar… Eu vou, no lugar, matar uma velha senhora que faz trabalho de caridade. Você tem seis horas para decidir. A escolha é sua.”

    Ao encontrar essa estranha nota no parabrisa do carro, Billy inicialmente pensa que não passa de uma piada de mau gosto. No entanto, uma professora loira é realmente assassinada, e Billy recebe outro bilhete, com outra escolha impossível de fazer. É preciso pensar rápido, ou outras pessoas vão morrer.

    Esse é o enredo do arrepiante romance Velocidade, do americano Dean Konz (editora Nova Fronteira). Impossível de largar, como todos os outros livros do autor, ele é adrenalina capítulo após capítulo, página após página – e enquanto o protagonista corre contra o para evitar mais mortes, o leitor quer correr até o final das 383 páginas para saber o final.


    Não parece super legal? Se tu achar, lê e depois me conta!

    Beijus

  3. Rachel diz:

    Hummm…esse parece interessante, na verdade meio desesperador hahahaha mas se eu achar depois te empresto! 🙂
    BJO

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