Histórias Infantis

Livro: Fadas no Divã

Li na Zero Hora de hoje o artigo (que posto abaixo) de uma psicanalista à respeito da permanência ou não dos monstros no repertório das fábulas infantis. Lembrei de um livro que é ainda um sonho de consumo, chamado “Fadas no Divã”. Este livro, publicado em 2005 pela editora Artmed, mesma editora que publica a maior parte dos livros que técnicos que usamos na faculdade de medicina, se propõe a analisar as histórias infantis mais clássicas (Chapeuzinho Vermelho, Patinho Feio, Cinderela, etc) sob a luz da psicanálise. Uma vez li o capítulo referente à história da Chapeuzinho Vermelho numa livraria e observei que os autores fazem um bom background histórico, analisando não só a versão “imortalizada” pela Disney, ou a forma como a vovózinha conta a história para as crianças. Eles resgatam as versões originais da história, onde, no caso da chapeuzinho vermelho por exemplo, havia uma erotização bastante evidente das personagens da chapeuzinho e do lobo, levando a crer que a história era dirigida às “mocinhas”, na transição da infância para a puberdade, como alerta aos perigos dos “lobos” que pudessem atravessar o seu caminho correto (a casa da vovó), seduzindo-as com a sua conversa mansa. Vale dizer também que a linguagem e a estética do livro são bem convidativas para o público que não é profissional da área da saúde.  Mando aqui o link de uma resenha antiga da Zero Hora a respeito do livro, na falta de coisa melhor e, abaixo, o artigo que me desencadeou a lembrança.

A criança, as fadas e os monstros, por Luciane Falcão*

Por que será que ainda temos profissionais da área da infância que se questionam se devemos ou não contar as histórias infantis e incluir ou não os “monstros”?

Por que será que estamos “evitando os monstros” ou querendo “fazer de conta” que eles não existem, suprimindo-os dos clássicos da literatura?

O “faz de conta” faz parte de uma etapa do desenvolvimento infantil, etapa essa fundamental na estruturação psíquica da criança. Será que esses adultos ainda “fazem de conta” que a agressividade, a raiva e os sentimentos ligados a isso não existem? Precisam ser excluídos, extirpados da mente? Ou será que eles próprios ainda se assustam com esses sentimentos, sentindo-se incapazes de lidar com a agressão e a violência?

O período da infância no qual o “faz de conta” está presente é o momento em que ela vivencia o mundo da fantasia. E o que é essa fantasia? É um treino, é uma brincadeira, é, literalmente, um “faz de conta” pelo qual ela poderá, aos poucos, viver aquilo que está dentro dela, do seu mundo interno, dos seus pensamentos. Viver isso através das brincadeiras, do faz de conta, das histórias infantis e, num dado momento, opa!!!, preciso voltar para a realidade!!! Neste momento, a criança passa a estruturar dentro de si algo que é fundamental no ser humano, a capacidade de discernir entre o que é o seu pensamento, a sua ideia, o “faz de conta” e o real. Sem isso, ela estará permanentemente fora da realidade e incapaz de lidar com as angústias e as frustrações que fazem parte de qualquer desenvolvimento. Há uma necessidade desse vaivém na vida psíquica da criança e nela, sim, a raiva, a agressão, o ódio estarão presentes.

Então, o problema não é a raiva, o ódio, sentidos pela criança – amor/ódio, Eros/Thanatos, fazem parte do homem, da humanidade, de todos!!! –, o problema é como permitir à criança vivenciá-los sem destruir o outro na relação.

Freud nos mostrou que há uma polaridade que rege a vida psíquica e a vida sociocultural do homem. O amor, Eros, liga; o ódio, Thanatos, destruição, desliga, dissocia, separa. Essas duas tendências vêm juntas. Seria mais esperançoso apostar na possibilidade de o homem reconhecer seus sentimentos, seus afetos e saber lidar com eles do que negar sua existência, e essa ideia precisa ser disseminada na nossa sociedade, nas creches, nas escolas, nas universidades, nos juizados.

Paradoxos e ambivalências fazem parte do progresso e do desenvolvimento do indivíduo.

Então, por que será que os educadores ainda se assustam com as histórias infantis e o que elas representam?

Eu também me assusto quando penso que na nossa sociedade há uma incapacidade dos adultos para lidar com aquilo que faz parte do ser humano… Quais monstros as crianças precisam temer? Somente os que estão dentro do seu psíquico ou aqueles que são incapazes de ter instrumentos para enfrentá-los? Monstros e fadas sempre existiram e sempre existirão.

*PSICANALISTA, MEMBRO DA SPPA

Nota: A categoria “Eu li: Saúde na ZH” é um Clipping. A publicação de artigos da zero hora no Blog não significa necessariamente apologia do seu conteúdo.

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2 respostas a Histórias Infantis

  1. Pingback: Feiurinha – Grupo Vivaz – Chapéuzinho Vermelho « ColdSip.com

  2. marina diz:

    eu quero o termino da historia de cinderela não idioticies

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