Gripe A, em Zero Hora

Gripe A: o desafio de informar corretamente, por Eduardo Hage*

A preparação contra a segunda onda da influenza H1N1 começou a ser estruturada há, pelo menos, seis meses. Em outubro de 2009, medida provisória autorizou investimento de R$ 2,1 bilhões para que o Brasil enfrentasse o inverno e protegesse a população contra o novo vírus da gripe em 2010. Desde então, compramos equipamentos hospitalares, vacinas e medicamentos, ampliamos a capacidade dos laboratórios e estruturamos estratégias de comunicação, educação e informação para esclarecer as pessoas sobre a prevenção contra a doença.

Tal estratégia, amplamente divulgada nos meios de comunicação a partir de janeiro, foi construída em conjunto com secretarias de saúde, sociedades científicas e associações de profissionais de saúde. Como qualquer cidadão pode confirmar no portal do Ministério da Saúde (www.saude.gov.br), as ações desenvolvidas vão além da vacinação – que representa o desafio de imunizar, em menos de três meses, pelo menos 80% dos 91 milhões de pessoas que compõem o público-alvo. Causam estranhamento, portanto, os argumentos de Paulo Argollo Mendes no artigo “Vacina antissuperlotação”, publicado em 9 de março.

No momento atual, a prioridade do Ministério da Saúde e dos meios de comunicação é o correto esclarecimento da população em relação à maior vacinação já realizada no país. Mas, como mostram nossos materiais de divulgação, a vacina não é a única forma de prevenção. As campanhas educativas, que já estão sendo exibidas, reforçam a necessidade de manter hábitos de higiene, como lavar as mãos, cobrir com lenço nariz e boca ao tossir, e evitar tocar olhos, nariz e boca.

Além de proteger a população mais vulnerável com a vacina, a estratégia para a segunda onda de gripe contou com investimento de R$ 525 milhões em infraestrutura. Do total, R$ 270 milhões foram usados na compra de equipamentos para leitos de UTI, R$ 114,4 milhões foram destinados ao Programa Saúde da Família e R$ 140,5 milhões às ações de média e alta complexidade, como internações e cirurgias. O número de laboratórios para diagnóstico aumentará de sete para 18 e ainda ampliamos o estoque de medicamentos para 21 milhões de tratamentos.

Essa prestação de contas é importante para esclarecer e tranquilizar a população, pois é fundamental que todo o Brasil esteja engajado no maior desafio do Programa Nacional de Imunizações.

*DIRETOR DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Vacina antissuperlotação, por Paulo de Argollo Mendes*

E se faltar álcool gel nas escolas estaduais? A suposição lembra um dos episódios que marcaram a epidemia da gripe A (H1N1) em 2009 e revelaram quanto itens singelos podem fazer a diferença no combate a uma doença que matou 209 pessoas no Estado. Muitos se erguerão para rebater, alegando que antes da nova gripe nunca havia se falado em uso do produto para prevenir infecção. E se falarmos da estrutura de saúde pública: médicos, demais profissionais, oferta de exames de raios X, postos abertos além do horário, emergências ampliadas e leitos para internação?

No auge da epidemia do ano passado, lembro que entre as primeiras teses para afugentar o pânico ante as mortes geradas pela moléstia era de que a gripe sazonal matava mais. As lições da gripe A (H1N1), portanto, vão além do mero bloqueio a uma eventual segunda onda. Não se pode contar apenas com vacinação para lidar com esta doença e com todas as demais associadas ao frio. Afinal, o inverno costuma ter data para começar e terminar.

Mais uma vez, nada se anuncia sobre medidas globais de ação ante a ameaça de enfermidades já conhecidas. A novidade imposta por uma pandemia, que recentemente chegou a ser questionada, é coisa do passado. Desde a primeira onda, fala-se que a segunda virá. A vacinação, que atingirá metade dos gaúchos e que começou ontem com a imunização de profissionais da saúde, é apenas uma das ferramentas de proteção. Quanto às demais, talvez mais decisivas ante o alcance da população, nada se ouviu falar até agora.

Uma delas é velha conhecida: ampliação da estrutura de atendimento. Se estamos com emergências superlotadas no verão, prefiro imaginar que algum gestor público já está com um plano pronto, em algum escaninho, e que o colocará em marcha até o fim de março. Há grande possibilidade de que nada disso ocorra no curto prazo. O que se tem visto é a abertura de vagas para médicos, por exemplo, em meio ao inverno, o que eleva a dificuldade de encontrar profissionais disponíveis para contratos emergenciais de três meses.

Depois do trauma da nova gripe, era de se esperar que a receita de ação contemplasse a garantia de medidas de reforço, como as listadas acima. Além das gripes, há as demais complicações respiratórias que fragilizam principalmente crianças e idosos. Assim como campanhas de conscientização nas escolas, nos bairros e vilas, no trânsito, nos locais com maior aglomeração etc.

O discurso é sempre o mesmo: as pessoas precisam se prevenir. Ora, se temos secretarias da Saúde nos municípios e no Estado e Ministério da Saúde, por que não se colocou em prática, no retorno às aulas, uma forte mobilização para que alunos pudessem desde já se precaver? Alguém observou em locais ou equipamentos públicos indicações sobre proteção para os próximos meses?

Pela ênfase dada exclusivamente à imunização, há risco de acomodação, a partir da crença geral de que a vacina seja blindagem total à doença. E não é. Muitos países até mesmo recuaram na aquisição de grandes quantidades de doses, ante a percepção de que o contágio não será em grau tão elevado. O comportamento verificado em países mais desenvolvidos pode também traduzir que suas políticas permanentes de saúde assegurem proteção natural a viroses oportunistas. O que estamos observando, mais uma vez, é a exacerbação do novo, que é a vacina, e a negligência do velho, que é montar a estrutura para garantir assistência em um Estado que sempre enfrentará adversidades no inverno. E nunca é demais perguntar: os estoques de álcool gel nas escolas estão em nível adequado?

*Presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) e da Federação Nacional dos Médicos (Fenam)

Nota: A categoria “Eu li: Saúde na ZH” é um Clipping. A publicação de artigos da zero hora no Blog não significa necessariamente apologia do seu conteúdo.

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