Emergências by Zero Hora

EMERGÊNCIAS EM CRISE*

Com o calor, tornou-se ainda mais dramática a situação dos pacientes que aguardam em filas nas emergências dos grandes hospitais da Capital. Mas a questão não é o clima: é a falta de vontade política para atenuar o sofrimento dos pacientes que não têm mais a quem recorrer. Ao longo dos últimos 16 anos, mais de 3,1 mil leitos do SUS foram fechados em Porto Alegre. A demanda reprimida está sobrecarregando os poucos hospitais que mantêm leitos de emergência, como o Hospital Conceição (50 leitos), o Clínicas (49), o São Lucas (15) e a Santa Casa (oito leitos), todos eles abrigando mais que o dobro de internados em relação à sua capacidade, segundo levantamento do jornal Diário Gaúcho. A atual visibilidade da crise teve como elemento detonador uma superdemanda ocorrida no Hospital Conceição na semana passada, que fez com que essa instituição aparecesse injustamente como vilã de uma realidade que é muito complexa e extremamente urgente.

O fechamento de leitos hospitalares em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul é a comprovação da gravidade dessa que é uma das facetas mais evidentes da crise na saúde pública. Os números são absolutamente eloquentes. Enquanto a população gaúcha e, em especial, da Grande Porto Alegre se mantém em crescimento, os leitos de hospitais disponíveis para atendê-la decresceram. Na Capital, onde nos anos 90 desativaram-se hospitais importantes como o Lazzarotto e o Ipiranga, deixaram de funcionar no ano passado, com a crise da Ulbra, o Independência (cem leitos) e o Luterano (120 leitos). No Interior, entre 2003 e 2007, fecharam as portas 11 hospitais, com cerca de 2 mil leitos. A maioria deles não teve condições de sustentar-se com os repasses do SUS. Em razão dessa situação, o problema hospitalar, em especial nas emergências, ganhou contornos calamitosos. As urgências, com leitos reduzidos, se mostram superlotadas até nos meses de verão, quando normalmente a demanda é menor.

O que para a população é difícil de ser entendido é que, com estruturas hospitalares disponíveis, em especial a dos hospitais recentemente fechados, não tenha havido por parte das autoridades das três esferas federativas, sem jogos de empurra, uma ação coordenada, marcada de urgência, no sentido de restituir à população parte dos leitos que as várias crises desativaram. A prefeitura da Capital anuncia proposta para reabrir o Hospital Independência. Por que apenas o Independência? E por que, com uma instituição erguida e equipada como o Hospital Universitário da Ulbra, em Canoas, com mais de 400 leitos, as autoridades não foram capazes de negociar sua abertura total em nome do direito dos cidadãos a uma saúde de mais qualidade?

À urgência dessa questão contrapõe-se uma aparente omissão das autoridades e das instituições privadas. De qualquer maneira, o tema da saúde pública precisa ser enfrentado de modo mais abrangente, que inclua desde providências em relação a emergências e a leitos, até medidas quanto à qualidade dos profissionais, às relações entre a medicina pública e os planos de saúde e, especialmente, quanto ao funcionamento adequado do sistema único.

* Editorial de Zero Hora de 04/02/2010

O SUS e a superlotação das emergências, por Luiz Carlos Seligman *

A superlotação das emergências vem sendo assunto frequente nos meios de comunicação pelos sérios problemas causados aos pacientes, familiares, gestores da saúde, enfim, a toda a sociedade. Embora não seja privilégio dos hospitais públicos, tampouco um fenômeno local, a maior repercussão recai justamente sobre os primeiros, como pôde ser observado nas últimas semanas.

As manifestações das entidades envolvidas mostram que o problema não tem uma solução simples e imediata como muitos desejam. Existem inúmeros fatores que contribuem para a ocorrência dessa situação. Entre eles, podemos citar a falta de leitos de internação por fechamento de unidades hospitalares, políticas públicas que preconizam a redução de leitos, como é o caso da reforma psiquiátrica, a falta de leitos de observação nas emergências, de uma clara definição das referências regionais e sua correta utilização, as limitações da rede básica e o absenteísmo de 20% nas consultas especializadas dos grandes hospitais de Porto Alegre.

Criar novos serviços no âmbito do SUS, sejam eles ambulatoriais ou hospitalares, implica uma criteriosa avaliação do quadro existente para ofertar aquilo que é realmente necessário. Cabe ao prestador público ou privado criar novas unidades e realizar a gestão interna das existentes, cabe às secretarias municipais, estaduais e Ministério da Saúde habilitá-las, fiscalizá-las e garantir o financiamento correspondente com o devido repasse do recurso. E, por fim, cabe à população utilizá-las corretamente.

Portanto, culpar um determinado órgão por uma situação que diz respeito à participação de todos é, no mínimo, uma irresponsabilidade, um mecanismo projetista, que em nada contribui para a discussão do tema e para o apontamento de soluções.

* SECRETÁRIO MUNICIPAL DE SAÚDE ADJUNTO DE PORTO ALEGRE

Nota: A categoria “Eu li: Saúde na imprensa” é um Clipping. A publicação de artigos da zero hora no Blog não significa necessariamente apologia do seu conteúdo.

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