Como fazer um bom médico?

Como fazer um bom médico?

Por Flavio José Kanter*

 

Nos anos em que lecionei na graduação de Medicina e orientei médicos residentes, uma preocupação constante era como ajudar a transformar principiantes em médicos. Minha convicção era de que eles tinham que aprender como se relacionar com as pessoas, dominar o processo de colher e organizar informações para definir problemas, como investigá-los, estudá-los e buscar soluções. Ou seja, tinham que dominar o processo. A informação estava disponível nos livros e revistas científicas. A internet tornou a informação ainda mais acessível. Mas quando chegava o momento de avaliar o processo educativo, as provas de medida de conhecimentos preponderavam e, em geral, preponderam ainda hoje.

O vestibular para ingresso nas faculdades continua calcado em provas de múltipla escolha. É esta a melhor maneira de escolher os futuros médicos? Eu não voaria num avião se soubesse que o piloto fosse considerado apto somente por ter sido aprovado num teste de múltipla escolha e apresentado um bom currículo, pesquisas publicadas, excelentes cartas de recomendação…

O New York Times de 14 de janeiro de 2010 publicou um artigo da Dra. Pauline W. Chen. Ela discute a questão do ingresso em escolas médicas nos Estados Unidos. Lá, em média, 42 mil candidatos altamente qualificados disputam 18 mil vagas a cada ano. E o que usam para fazer a escolha? Currículo, cartas de recomendação e, com muito maior peso, um exame estandardizado cognitivo, que é exigido para admissão em todas as escolas de Medicina daquele país. Este exame tem papel crucial em definir quem entra e quem não entra em escola médica. Muito semelhante aos nossos vestibulares. Pergunta a Dra. Chen: “Isso garante que os candidatos selecionados irão se tornar os melhores médicos? Talvez não”.

Ela relata um estudo publicado recentemente por um grupo de pesquisadores europeus e americanos. Acompanharam mais de 600 alunos de Medicina na Bélgica ao longo de vários anos. Foi administrado teste de personalidade estandardizado, explorando cinco dimensões: capacidade de comunicação (extroversão), características neuróticas, franqueza (sinceridade), cordialidade e escrúpulos.

O estudo mostrou que a identificação destes eixos de personalidade serviu para prever o desempenho dos estudantes, reduziu diferenças étnicas e de minorias. O eixo da capacidade de comunicação foi individualmente o que melhor correlacionou com bom desempenho. Padrão neurótico foi o preditor de mau desempenho mais consistente. Ela observa que se uma escola quiser formar excelentes pesquisadores, as provas de conhecimentos seriam suficientes. Mas, naquelas que buscarem formar médicos para prestar assistência a pessoas, a avaliação padronizada de características de caráter do aluno poderia trazer uma nova dimensão, útil na escolha.

No futuro, deveremos caminhar para algumas outras medidas de capacidade para exercício da medicina e das outras profissões. Sair-se bem em testes de múltipla escolha prova que o candidato é bom em responder questões de múltipla escolha. E depois, na profissão?

O artigo da Dra. Chen conclui citando uma das autoras do estudo: “Quando pedes a amigos para te descreverem, eles o fazem em termos de tua personalidade. Raramente obténs uma descrição de tuas habilidades cognitivas. Personalidade é o que nos faz ser o que somos”.

*MÉDICO

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Agora eu:

Quer ler a pesquisa na íntegra? Clique aqui!

Essa valia uma discussão: O que é um bom médico? O que somos antes do vestibular é mais determinante do que o que fazem conosco durante os seis anos de faculdade? Se o teste de múltipla escolha do vestibular pode não ser capaz de avaliar quem será bom ou mau na profissão, será que o protocolo de entrevista desta pesquisa de “personalidade” é mesmo capaz de avaliar quem é bom ou mau de caráter, como sugere o professor? A pesquisa correlaciona dados de personalidade com o desempenho escolar, dizendo que determinadas características se associam mais a um bom ou mau desempenho no futuro. Não entendo. Qual foi o critério de medição de bom ou mau desempenho dos estudantes? As mesmas provinhas de múltipla escolha que o autor do texto julgou insuficientes para avaliar o candidato no vestibular? Avaliaram os médicos depois de formados? O que é indicador de bom desempenho de um médico formado? O salário? O carro da garagem? Número de artigos publicados? Número de processos na justiça? Entrevistaram os pacientes deles? Avaliaram o caráter e a capacidade de julgamento dos pacientes deles?

Fiquei curiosa para saber o que o professor sugere que façamos com todos esse inábeis, que não conseguirão passar nesse “psicotécnico” anti-neurose ai da pesquisa. Como seria bom se a universidade e os professores tivesse algum tipo de papel em ajudar as pessoas a se desenvolver…

Apesar de todas essas críticas, acho que o esforço do texto não foi de todo inútil. A premissa do professor é boa. Claro que o vestibular é péssimo.

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Uma resposta a Como fazer um bom médico?

  1. João Silveira diz:

    O meu médico cirurgião oftalmologista ( olhos ) em Portugal / Lisboa Dr António Maria Maia de Lima , é muito bom e excelente médico e profissional que encontrei após correr vários outros médicos e resolveu o meu problema.

    João Silveira

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