Saúde, a prevalência do abandono

Saúde, a prevalência do abandono, por Lucio Barcelos*

(08/01/2009)

No campo da saúde pública, no qual tudo e nada acontece ao mesmo tempo, creio que deveríamos abrir uma pequena janela para refletir sobre certos fenômenos que até hoje persistem em seu interior.

São fenômenos do quotidiano, que, pela sua persistência no tempo e pela sua aparente “naturalização”, perdem, gradativamente, sua real importância e dimensão. Em certa medida, inscrevem-se no mesmo processo social regressivo e perverso que tenta transmitir para os cidadãos comuns a ideia de que “o mundo é assim mesmo” e que temos que nos conformar com as “coisas como elas são”: assim, as manifestações de embrutecimento e empobrecimento da sociedade, que afetam os jovens e as mulheres de uma forma mais direta, e cujas expressões mais dramáticas são a violência e o desemprego, espelham esse tipo de “desenvolvimento” que a sociedade atual é capaz de oferecer. Na área da saúde pública (da qual são dependentes mais de 140 milhões de brasileiros), tais manifestações apresentam-se de forma mais grosseira e se revestem de um componente de atraso social quase incompreensível. O descaso é gritante.

Diariamente, milhares de pessoas são submetidas a situações de absoluto constrangimento, como a espera por longas e intermináveis horas para conseguir uma mera consulta médica. Ou a espera por meses – senão anos – para ter acesso a um exame ou uma consulta especializada ou, ainda, a uma internação hospitalar. Ou viajar centenas de quilômetros, até ser “contemplado” com uma consulta em um dos grandes hospitais da Capital. Ou ser “emergencializado” e ficar um longo tempo (dias ou até semanas) em uma cadeira ou maca até que seja liberado um leito da especialidade que o cidadão necessita; ou recorrer à Justiça para obter um medicamento que o sistema, legalmente, teria que fornecer.

São, todos, sintomas típicos de um profundo desrespeito aos cidadãos. Ou alguém tem outra explicação? Afinal, nós estamos em pleno século 21, quando todos se orgulham dos assombrosos avanços tecnológicos que nossa sociedade já alcançou. Será que esta “sociedade” já não deveria ter desenvolvido uma tecnologia capaz de evitar essa arcaica humilhação a que são forçados os cidadãos para ter acesso a direitos tão elementares como uma consulta médica?

Eu não acredito. Tenho a convicção de que os “governos” poderiam solucionar essa situação desrespeitosa, deixando de lado a demagogia e agindo com genuína vontade de resolver a questão.

* MÉDICO SANITARISTA (Militante do PSOL, membro do Conselho Consultivo do SIMERS)

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