A Rainha do Castelo de Ar

A Rainha do Castelo de Ar

Conceito: 4

Gênero: Suspense

Terminei ontem “A Rainha do Castelo de Ar”, terceiro livro da Trilogia Millenium, último livro da vida do Stieg Larsson. Fiquei triste, porque todos os personagens meio que morreram para nós, “seres-que-continuam-vivos”, mas fiquei feliz pelo anjo da guarda do Stieg Larsson ter sentado no ombro do autor e soprado no ouvido dele, ali pela altura da página 530, 540: Essa história você encerra direitinho. Não deixe arestas.

Se tinha que morrer, pelo menos que morresse feliz com a própria obra. Acho que morreu feliz.

“Os Homens Que não Amavam as Mulheres” foi bom por ser um clássico. Mas a grande história que o Stieg Larsson criou e contou foi a dos dois últimos livros. Li que o George Cloney se interessou pela trilogia e pensou em filmar. Eu chutaria que foi mais pelo potencial da segunda história, contada no segundo e no terceiro livro, do que pela história do primeiro. E também porque o Mikael Blonkvist tem tudo a ver com o George Cloney. Charmoso, irrestivel, atlético… imagino o George Cloney lendo e pensando (bem humilde): Sou eu! Sou eu!

A  história é a continuação imediata do segundo livro. Mesmo dia. Mesma hora. Mesmas pessoas. O argumento central do segundo livro é o comércio de mulheres, vindas do Leste Europeu. Neste livro conhecemos uma figura chamada Alexander Zalachenko, um Russo que paira como uma incógnita até a metade de “A menina que brincava com fogo”, outra figura chamada Ronald Niederman, o “gigante loiro” que sofre de Analgesia Congênita (não sente dor!) e começamos a ouvir falar da Säpo, a agência de segurança da Suécia. No terceiro livro só dá Säpo. Ou melhor, só dá “A seção”, departamento secreto da Säpo criado durante a Guerra Fria e que não consta nem no organograma oficial da agência. É basicamente um serviço secreto dentro do serviço secreto, criada em meio à paranóia da guerra fria, com o objetivo de controlar a influência soviética externa e interna no país. E não havia limites para isso, inclusive ocultar crimes e ingerir sobre a liberdade de cidadãos suécos. E aí entra Lisbeth Salander, co-heroína do livro, internada em clínica psiquiatrica quando criança e declarada incapaz, mesmo na maioridade, designada aos “cuidados” de tutores que chegam até a estuprá-la.

O livro deve ter sido uma sensação na Suécia, porque para nós a Säpo ser real ou ser fictícia tem mais ou menos o mesmo impacto. Provavelmente não sabemos nem pronunciar o nome da agência de segurança suéca (desconfio que não seja como o animal). Mas no país deve ter sido arrasador. Ele reconstitui uns 40 anos de história da suécia, citando inclusive o contexto político dos governos de cada um dos primeiro-ministros mais importantes do país dos anos 70 em diante. Com destaque para a “conspiração Olof Palme“, um primeiro-ministro social-democrata anti-apartheid e guerra do vietnã que foi assassinado até hoje não se sabe por quem. É meio que um “Kenedy”, pelo que pude perceber.

O livro é muito bom. Tem direito a espionagem de todo tipo, desde a cybernética até a arapongagem mais comum de fundo de quintal, julgamentos emocionantes, perseguições, histórias paralelas tão interessantes quanto a história central do livro e uma surpresa bombástica quase no fechamento das cortinas, quando você acha que não é possível acontecer mais nada.

O livro é grande. Os três são. Tão grande que chega dar orgulho quando você termina de ler. Ufa, você pensa, Ganhei de você , livro. Mas vale a pena. Uma vez que outra a gente se irrita porque o Stieg Larsson constroi tudo com uma densidade absurda. Ele por exemplo usa umas 4 páginas para contar a historia de vida de um iraquiano curdo que vai quebrar um galho para o Mikael Blonkvist. A Expo, a revista anti-fascista do Stieg Larsson, devia ser impecável. Haja nota de rodapé para cobrir tudo que ele cobre.

Mas mesmo nessas partes, você se rende. Porque é interessante. Tudo que ele conta, por mais banal, vai dar em algum lugar. O Stieg Larsson era uma pessoa de raciocínio muito claro. Você aprende a confiar nele. Mesmo que não pareça, todas as informações que ele tráz irão se encaixar.

Vou lamentar de novo, e pela última vez (snif), a morte do Stieg Larsson. Não é todo dia que você acha um autor de ficção favorito. Agathas Cristie, Jostein Gaarders, Robins Cook, Helens Fieldin, J. K. Rowlings, não caem na sua mão todo dia. A grande lacuna deixada no que seria a Série (e não a Trilogia) Millenium é nunca conhecermos a doce e manipuladora Camilla Salander, irmã gêmea da Lisbeth. Isso fará falta. E fica a curiosidade: Será que as irmãs salander se encontrariam no quarto, último e inacabado livro que o Stieg Larsson deixou no lap top antes de morrer?

Baixem na internet os filmes suécos dos livros 1 e 2, depois de lerem os livros. Depois. Eu não sou muito chata com os filmes. Eu entendo que livro é todo um tipo específico de prazer. Cinema é outro tipo específico de prazer. Mas não deixar o livro estragar o prazer do filme é opção, é só relaxar. O melhor, que é ler o livro você ja fez. O filme é bônus. Agora ver o filme necessariamente estraga o prazer do livro. É mão única, infelizmente.

Tem legendas em português para os dois filmes já. No isohunt você acha ambos os filmes. Só digitar o nome em suéco para “Os homens que não amavam as mulheres” (Män som hatar kvinnor) e em inglês para “A menina que brincava com fogo” (The Girl Who Played With Fire).

Quem achar que não vai ler os livros, veja pelo menos o filme de “Os homens que não amavam as mulheres”. Está mais fiel e a qualidade é melhor que a do segundo. Para “A menina que brincava com fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar”, estou na expectativa de sair a versão hollywoodiana, que acho que terá mais qualidade. Na versão suéca, por exemplo, faltou orçamento (ou tecnologia) para contar a história introdutória da Lisbeth na praia com o furacão. Achei que fez falta.

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Dica para os fãs de suspense, mistério e espionagem: Resenha do livro CIA – Manual Oficial de Truques e Espionagem

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5 respostas a A Rainha do Castelo de Ar

  1. waldircardoso diz:

    Obrigado pela dica.
    Abraços.

  2. thais diz:

    Por favor, alguem entendeu o titulo rainha do castelo de ar?

  3. dsoares08 diz:

    Oi Thais!

    Não, infelizmente nunca encontrei explicação!

    Abraços

  4. V diz:

    o título se refere a Lisbeth, por ela ser dada em alguns momentos no livro como fantansiosa em seus pensamentos, e por isso ser uma rainha do castelo de ar em suas histórias, acho que basicamente é isso

    • nyna diz:

      Creio que é isso mesmo. Eles diziam que tudo o que ela afirmava sobre os abusos que sofreu era pura fantasia. Eu entendo o título dessa forma: para as autoridades, Lisbeth vivia em um mundo fantasioso (castelo de ar) do qual ela era o centro (a rainha). Gosto de títulos assim, não tão óbvios, do tipo que você tem que ler pra o livro pra poder entender.

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